Sonhei com meu amigo Pinheiro.
Eu estava numa calçada iluminada e bastante arborizada, e ele vinha caminhando.
Quando o vi me indignei ! E disse mais ou menos o seguinte:
-Pinheiro ?! que que é isso ? mentiram pra mim que tu tinha morrido ! não é possivel, tu esta vivo ! e tudo que eu chorei ? a Vânia estava de brincadeira comigo ? todos eles mentiram ???
tu está vivo !!!
E o meu grande amigo Pinheiro, respondeu com aquele jeitao, bem Pinheiro de ser :
-Não gatinha, não da bola pra eles, nao eh nada disso... eu estou aqui. Fica tranquila, vou indo e depois a gente se vê .
Ele atravessou a rua, e seguiu caminhando como alguém que ia resolver algumas coisas e já voltava. E eu, com uma sensaçao de alívio e indignação por estar sofrendo um pseudo luto, segui na calçada, pensando a respeito e achando que ele estava meio branco de mais.
O sonho foi real, real demais. E é mais ou menos assim que tenho me sentido com relação a morte do meu amigo. Tenho um luto guardado dentro do meu peito. Ele nao pode ser vivido intensamente porque, eu não fui no velório, eu nao vi o caixão, eu nao estive no enterro.
Eu nao estou vendo meus amigos sofrerem, nem a nevoa triste que paira em Porto Alegre. Nao posso abraçar as pessoas que eu amo e que sei, estão sofrendo muito. Nao estou presenciando o vazio desconsolado dos botecos do centro. Nao consigo, ficar de luto, a França me impede, ele estaria de acordo. E quando de repente, me invade uma dor no peito começo a chorar e me lembrar do Pinheiro vivo, sei que na verdade, a memória deste homem não me permite continuar sofrendo. Ele estava super feliz com a minha viagem, e eu muito sei o que ele gostaria que eu fizesse aqui. Por isso, na noite da morte do meu querido, eu bebi todos os wiskys de Saint Malo e dancei, dancei, dancei e a boate parou para me ver dançar, porque eu fiz todos saberem que eu dançava em homenagem a alguém que me disseram ter morrido mas que para mim, não se foi . Nao se foi, porque o que o Pinheiro deixou em mim foi intensidade, foi sublimaçao, foi grandeza, foi vida, é vida.
O destino me traçou uma armadilha. No inicio de uma viagem, tao importante na minha vida, eu perdi alguém que muito me fez, crescer, transcender e viajar, sem sair de Porto Alegre.
Obrigada Pinus, pela coragem, pela irreverência, pela inteligência e principalmente pela sabedoria, dom de poucos. Obrigada Pinus, por ter cuidado de mim, do Claudio, da Vania e de tantos outros que eu nem conheci. Obrigada pelas noites valiosamente agradáveis ao som de um trágico tango (por una cabeça) . Meu amigo louco por corrida de cavalos, louco pelo seu netinho, louco pelos seus amores, pelo sitio nas margens do rio taquari, pela literatura. Obrigada por ter sido tão louco pelas coisas que gostava, e ainda assim ter dado tanto carinho e atenção as relações com os amigos . Eu que sigo em vida, vou me livrar da dor de te perder e continuarei desfrutando e gozando intensamente os instanstes, em tua plena homenagem .
Forte Abraço, da amiga
Camila Ali
13 mai 2009

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