“Ainda me surpreende o fato de esse espetáculo fazer sucesso. É uma peça só de texto, sem ação, e que está longe de ser uma comédia. Quando estreamos, não esperávamos por essa repercussão com o público nem com a crítica. Tínhamos até receio das pessoas acharem o tema muito pesado e não quererem ir.” disse Bel kowarick- protagonista e produtora em entrevista ao Jornal Estadão
A convite da amiga Rita Rheingantz para meu primeiro espetáculo do Porto Alegre em Cena 2011, assistir Dueto para Um foi plenamente satisfatório. Depois da peça, voltando para casa dentro do táxi, nos percebemos mudas, assimilando por reflexão a maravilha da profundidade do trabalho que acabáramos de assistir. Texto e atmosfera bastante densos, atuação absurdamente instigante. Sentada durante todo o tempo em uma cadeira de rodas, o trabalho de corpo desenvolvido pela atriz Bel Kowarick merece todo respeito. A personagem que sofre de esclerose múltipla e resolve por intermédio do marido se tratar com um psiquiatra, passa pelo desespero inconformado de uma violinista apaixonada que se depara com a impossibilidade de continuar a exercer seu ofício. Durante o processo de negação da doença, o psiquiatra interpretado pelo ator Marcos Suchara, tenta durante as sessões de psicanálise livrar sua paciente da depressão e do suicídio.
Salve a construção deste cenário, que se observado com atenção é de uma elaborada engenharia, mas se move com sutileza do real passar do tempo. O “palco giratório” se o posso assim chamá-lo, que gira milimetricamente lento durante o espetáculo, proporcionando uma relação de ampulheta entre espaço-tempo, se encaixa com a sutileza necessária no contexto do realismo dramático da peça. Tamanha sutileza da interferência do cenário no espetáculo, redobra a excelência do trabalho de expressão apresentado pelos atores que levou os espectadores para além das “inexistentes paredes” do suposto consultório psiquiátrico.
A desenvoltura do ator Marcos Suchara, antagonista da peça, remete ao paradoxo de impotência e grandeza existente no ofício de um profissional da saúde mental. Driblando críticas e desaforos que recebe da paciente, Dr Feldman passa pelos limites da impotência ao tratar a paciente que se encontra em estágio de negação do luto. Marcos trouxe à tona com bravura, as emoções “proibidas” de serem reveladas ou se quer sentidas por um psiquiatra, profissional do qual se espera apenas a sóbria imparcialidade, a convicta parcimônia e algumas receitas de ansiolíticos na condução ao caminho do equilíbrio.
A iluminação do espetáculo também merece destaque no proporcional jogo de “salvação” entre médico e paciente, onde ambos podem se encontrar na fatídica “roda da vida”, (mais uma vez menção ao palco giratório) de repente sem forças.
Ao cumprimentar os atores Marcos e Bel no camarim do Teatro Renascença, me deparo com duas figuras humildes e diferenciadas, que pareciam tímidos e quase desconfortáveis em receber o retorno satisfeito do público. Confirmando o trecho da entrevista citada no início desta crítica e a particular concepção desta jornalista que vos escreve, sobre a nobreza de um profissional no exercício da humildade.


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